Dezoito pessoas detidas desde maio durante protestos contra o governo do presidente eleito Nicolás Maduro foram libertadas na quarta-feira (19) antes da chegada à Venezuela da  Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Nesta quinta-feira (20) Michelle Bachelet  reuniu-se com parentes de opositores presos ou falecidos, no segundo dia de visita à Venezuela, marcado por protestos para chamar sua atenção sobre a grave crise.

Bachelet também se reuniu com altos funcionários, em um dia no qual centenas de pessoas se concentraram em diferentes pontos de Caracas para alertar sobre o colapso do sistema de saúde, entre múltiplas denúncias.

“Não vão nos devolver nossos filhos, mas pode ser um grão de areia para que não aconteçam mais mortes”, afirmou Janet Hernández, tia de um adolescente de 14 anos que faleceu em 2 de maio, supostamente baleado por agentes de segurança durante um protesto contra o governo de Nicolás Maduro.

Ao lado de Hernández, vários parentes de pessoas mortas durante manifestações ou de “presos políticos” conversaram com a Alta Comissária.

De acordo com Alfredo Romero, diretor da ONG Foro Penal, que denuncia que o país tem 687 detidos por razões políticas, Bachelet informou que pretende manter dois comissários durante três meses no país, sem descartar a possibilidade de um escritório permanente.

A comissária afirmou que “trabalhando na possibilidade de libertação de vários presos”, completou.

Mais cedo, na Chancelaria, Bachelet se reuniu com o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, chave no apoio militar a Maduro, e com o presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno, de linha oficialista.

“Bachelet, escute o povo, não se feche com políticos que vão te dizer que está tudo bem!”, gritaram manifestantes em frente à sede do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, onde a diplomata esteve na manhã desta quinta-feira.

Trabalhadores da saúde e do setor educativo também saíram às ruas para denunciar a falta de medicamentos e insumos hospitalares, e a precariedade das escolas.

“Os hospitais necessitam ajuda humanitária, a situação é crítica”, disse a jornalistas Silvia Bolívar, enfermeira da maternidade Concepción Palacios.

– País devastado –

A Venezuela enfrenta a pior crise econômica de sua história recente e em uma luta de poder entre Maduro e o opositor Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino por meia centena de países liderados pelos Estados Unidos. Bachelet se reunirá com ambos nesta sexta-feira.

O procurador-geral, o chavista Tarek William Saab, disse ter informado a Bachelet que seu escritório acusou 596 agentes do Estado por violações de direitos humanos.

A diplomata, que fará uma única declaração nesta sexta-feira, citou recentemente as denúncias de “assassinatos, detenções arbitrárias e torturas” por parte das autoridades durante os protestos no início do ano.

Maduro advertiu na quarta-feira esperar que a visita da ex-presidente chilena “seja para o bem”, mostrando-se aberto a escutar “recomendações”.

A escassez de bens básicos e uma hiperinflação que o FMI projeta em 10.000.000% para 2019 caracterizam a crise, da qual a oposição culpa Maduro, enquanto este culpa um “bloqueio financeiro e comercial” de Washington.

Segundo a ONU, um quarto da população – o equivalente a sete milhões de pessoas – requer ajuda humanitária urgente, e quatro milhões emigraram desde 2015.

Um relatório da organização calcula que 22% dos menores de cinco anos sofrem desnutrição e que 300.000 doentes crônicos estão em risco.

Bachelet afirmou que a recusa do governo em reconhecer o problema torna insuficiente a resposta oficial.

– Sanções, na agenda –

Bachelet é crítica às sanções de Donald Trump para asfixiar Maduro e em apoio a Guaidó. Em particular, teme que a proibição de comercializar petróleo venezuelano nos Estados Unidos agrave a crise.

O ministro do Planejamento, Ricardo Menéndez, disse a Bachelet que essas medidas “exacerbaram a situação de asfixia da economia”, já afetada por uma redução da renda petroleira, de 42,6 bilhões de dólares em 2013, a 4 bilhões em 2018.

A ex-presidente chilena abordou esta questão na quarta-feira com o chanceler Jorge Arreaza, que afirma que o congelamento de ativos nos Estados Unidos e na Europa reduziu o orçamento para importar fármacos e insumos médicos.

Caracas cifra em 30 bilhões de dólares o dano à economia por culpa das sanções, que Washington ameaça endurecer até que Maduro caia. *AFP

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