O caminho para o diálogo ficou mais longo na Venezuela após o bloqueio econômico dos Estados Unidos, que buscam impor uma linha dura para expulsar Nicolás Maduro, sem apoiar uma negociação que dê sobrevida ao presidente ‘chavista’.

Maduro suspendeu as negociações com a oposição na quarta-feira (6) em reação às medidas que congelaram os ativos do país nos Estados Unidos e limitaram severamente sua atividade comercial.

John Bolton, assessor de segurança do presidente Donald Trump, não deixou dúvidas sobre o objetivo: “O tempo para o diálogo já passou, agora é hora de agir”.

Washington pretende “assumir um papel de liderança e definir a agenda na Venezuela”, avaliou David Smilde, professor de sociologia e estudos latino-americanos da universidade americana de Tulane.

A Casa Branca, que lidera a pressão para tirar Maduro, perdeu protagonismo após a fracassada tentativa de golpe militar de abril liderada pelo opositor Juan Guaidó – a quem reconhece como presidente interino do país – e pelo início, em maio, do diálogo com a mediação da Noruega.

Embora a diplomacia americana alegue que apoia as negociações, o Conselho de Segurança Nacional (NSC) está comprometido com a “pressão máxima” para encerrar o governo de Maduro, diz Smilde.

Assim, com o bloqueio, Bolton e o NSC “afirmaram seu domínio na política da Venezuela”, acrescentou.

– Trump, “chefe da oposição” –

Maduro, com uma popularidade muito baixa, anunciou que irá rever a negociação que ocorre em Barbados e ameaçou punir os opositores que apoiarem o bloqueio, uma decisão que busca ganhar tempo para agir.

“Em Barbados estava buscando o fim das sanções, mas o que recebeu foi uma dose maior. Não será permitido um acordo de conciliação, a menos que ele aceite as eleições presidenciais com novas autoridades eleitorais e sem ele à frente, o que não seria um bom negócio para ele, porque sua ideia é permanecer no poder”, disse à AFP o cientista político Luis Salamanca.

Já Guaidó insiste que não negociará sem discutir a realização de novas eleições e que continuará jogando em todos os campos: o do diálogo, refutado por um setor opositor; o da pressão internacional, incluindo a cooperação militar dos Estados Unidos; e o da mobilização popular, que resfriou nos últimos meses.

“Trump está configurando como será a política venezuelana do futuro e, acima de tudo, como será a oposição do futuro. Agora é possível dizer que Trump é o líder da oposição com estas sanções”, destacou o cientista político Ricardo Sucre.

Para Salamanca, o diálogo pelo qual torcem a ONU e a União Europeia “enfraqueceu (com o bloqueio) e seu futuro dependerá dos cálculos feitos pelos atores, do que eles veem que podem conseguir”.

Oslo disse nesta quinta-feira que mantém contatos com ambas as partes para futuros encontros.

A alta comissária da ONU para os Direitos Humanosm Michelle Bachelet, que denunciou graves violações na Venezuela após uma visita a Caracas em junho, advertiu nesta quinta-feira (7) que o bloqueio ameaça “exacerbar” a crise.

– Intervenção militar? –

Por enquanto, Maduro ainda se apega à Força Armada, à qual conferiu poder amplo mas que está dividida, e aos seus aliados Rússia, China, Cuba e Irã, a quem Bolton emitiu um aviso: “Não dobrem uma aposta ruim”.

Mas em um novo respaldo a Caracas, Pequim pediu que Washington pare de “assediar” outros países, enquanto Moscou anunciou um acordo de gás com a Venezuela.

A medida que Trump aperta a corda para asfixiar Maduro, a quem acusa de ter sido reeleito de maneira fraudulenta, sua ameaça de intervenção militar perde força.

O estrangulamento econômico para forçá-lo a renunciar ou fazer com que os militares retirem seu apoio parece ser sua carta na contagem regressiva para buscar a reeleição em 2020.

“Há pouco ou nenhum movimento dentro do governo Trump para algum tipo de solução militar para o conflito”, disse Smilde, lembrando que esses movimentos nos Estados Unidos não são novos para a região.

“Essas ações por si só não são suficientes para inviabilizar as negociações de Barbados. Os Estados Unidos também tentaram atrapalhar o processo de paz na América Central nos anos 80 e tiveram sucesso. É fato que estão trabalhando de forma agressiva contra a negociação, mas isso pode despertar o apoio internacional para a mesa”, concluiu. *AFP

Anúncios