Mostra exibirá itens de propaganda, estatuetas e instrumentos de medição do crânio, jogando luz sobre a polêmica relação entre a Argentina e o nazismo. Objetos foram encontrados pela polícia em casa de colecionador.

Bustos com a imagem do líder nazista Adolf Hitler, uma estátua da águia germânica sobre uma suástica e instrumentos de medição do crânio são alguns dos objetos a serem expostos pelo Museu do Holocausto da Argentina, em Buenos Aires. A instituição abre em dezembro uma mostra com 71 artefatos nazistas apreendidos pela Justiça do país.

“Esses itens demonstram parte da terrível história que foi o Holocausto nazista”, afirmou o presidente do museu, Marcelo Mindlin, ao apresentar os objetos à imprensa na última quarta-feira (02/10). Os artefatos foram encontrados em local secreto, escondidos por um colecionador.

Segundo Mindlin, a Justiça argentina decidiu deixar as peças sob os cuidados do museu para que fossem convertidas em “elementos de educação e de exposição”.

A exposição exibirá itens como objetos de propaganda, incluindo estandartes e estatuetas, uma ampulheta que teria pertencido a um membro da força de elite nazista SS e jogos para a doutrinação de crianças.

Estátua com símbolo nazista apreendida na casa de colecionador em Buenos AiresEstátua com símbolo nazista apreendida na casa de um colecionador em Buenos Aires

Entre os objetos que mais chamaram atenção estavam instrumentos de medição racial, como um compasso ou uma régua graduada que, segundo Mindlin, foram usados para justificar políticas que “resultaram na perseguição e morte de judeus e outras minorias” durante o regime nazista.

Instrumentos nazistas de medição do crânio apreendidos pela polícia argentinaInstrumentos nazistas de medição do crânio apreendidos pela polícia argentina

Todas as peças faziam parte do antiquário de Carlos Olivares, processado pela Justiça argentina pela posse de peças arqueológicas e paleontológicas em violação à lei de proteção ao patrimônio. Em 2017, a polícia encontrou, durante buscas em sua residência, grande quantidade de objetos de origem japonesa, chinesa, egípcia e alemã.

Os objetos nazistas estavam escondidos em uma sala secreta atrás de uma parede falsa de sua casa, localizada em um rico subúrbio de Buenos Aires. Olivares está sendo processado também por armazenar objetos nazistas para fins comerciais.

“Quando vieram os peritos da Alemanha, eles ficaram surpresos ao ver todos esses objetos. Não podiam acreditar. Disseram que era da época do nazismo e que alguns contavam com modificações para que fossem comercializados mais facilmente”, disse o chefe da Polícia Federal argentina, Néstor Roncaglia.

“A grande surpresa desses objetos é que eles não podiam ter pertencido a ninguém, além de algum membro da hierarquia nazista”, completou Mindlin.

A ministra argentina da Segurança, Patricia Bullrich, comentou sobre a possibilidade de que o museu também dedique no futuro um espaço sobre a polêmica relação entre a Argentina e o nazismo. Ela avalia que o país “tomou uma decisão equivocada nesse momento histórico”.

“Acredito que essas coisas que vemos aqui não são uma casualidade; não há alguém que as venda isoladamente”, disse a ministra. “Há uma cadeia histórica na Argentina de pessoas ou de intenções que geraram uma procura por esse momento da história.”

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, um grande número de membros de alta patente do regime nazista encontrou refúgio no país, que também abriga a maior população de judeus na América Latina. O museu, inaugurado em 2001, é o único sobre o Holocausto no continente.

A coleção ainda inclui uma foto original tirada pelo fotógrafo oficial de Hitler, Heinrich Hoffmann, exibindo uma aeronave. Também chamou atenção um tabuleiro Ouija, usado para comunicação com os mortos. O objeto, gravado com símbolos nazistas, é uma relíquia dos elementos de ocultismo associados ao nazismo.

“Isso demonstra o poder dos nazistas e o forte sentimento em relação ao nazismo que eles tinham, de modo a investir e gastar nesses objetos”, disse Eva Fon de Rosenthal, uma húngara de 94 anos sobrevivente do Holocausto. “Havia milhares de nazistas aqui”, afirmou, se referindo aos que deixaram a Alemanha para viver na Argentina após a queda do Terceiro Reich.

Entre eles estava Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto, que vivia sob nome falso até ser capturado por agentes israelenses em Buenos Aires em 1960.

As relíquias, segundo Mindlin, “demonstram mais uma vez que a Argentina não recebeu apenas sobreviventes do Holocausto, mas também líderes nazistas”.

A mostra permanente com as relíquias do regime nazista será aberta ao público em 1º de dezembro. *Deutsche Welle (emissora internacional da Alemanha)