O Vaticano não está à beira da falência, como aponta um livro publicado esta semana – declararam nesta terça-feira (22) o cardeal hondurenho Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga e o responsável pelo patrimônio da Santa Sé, bispo Nunzio Galantino.

“Dizer que o Vaticano está em risco de falência é falso”, assegurou o cardeal, questionado sobre a tese que aparece em um livro publicado pelo jornalista italiano Gianluigi Nuzzi.

Rodríguez Maradiaga faz parte do grupo de seis cardeais que aconselham o papa Francisco nas reformas econômicas da Cúria, o governo central.

“Parece-me que o que está em andamento é uma estratégia para desacreditar o papa”, disse o cardeal, em entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal italiano “La Repubblica”.

“Querem atacar o pontificado: primeiro, retratando a Igreja como uma instituição cheia de pedófilos, e depois, acusando-a de ser negligente com seu sistema econômico. Mas não é assim”, acrescentou o cardeal.

Baseado na análise interna das contas do Vaticano, o livro de Nuzzi argumenta que o Vaticano está prestes a falir e que as reformas do papa para limpar suas contas são insuficientes.

Conhecido por ser o autor de livros escandalosos sobre o Vaticano, incluindo “Via Crucis” e “Sua Santidade”, com as cartas vazadas pelo mordomo de Bento XVI, o jornalista foi julgado e absolvido pelo Vaticano em 2016 por esses vazamentos.

Para o presidente da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, APSA, bispo Galantino, entrevistado pelo jornal católico italiano “Avvenire”, “não há colapso ou inadimplência” no Vaticano.

“É necessário rever as despesas. E é isso que estamos fazendo. Posso provar isso com números”, disse o bispo, que acredita se tratar de uma “sabotagem obstinada” contra a linha do pontificado do papa Francisco.

– Um Estado sem impostos ou dívida pública –

Nuzzi baseia suas denúncias nos dados da APSA, que administra os bens da cúria romana e que, em meados do ano, apresentou dados negativos pela primeira vez na história.

Segundo o jornalista, “a situação do Vaticano é pior do que quando Bento XVI decidiu se afastar”, referindo-se à renúncia do pontífice alemão em fevereiro de 2013.

Em seu novo livro, “Julgamento Universal”, Nuzzi fala sobre um déficit de 43,9 milhões de euros em 2018.

“A administração da APSA em 2018 encerrou com um lucro de mais de 22 milhões de euros. Os dados contábeis negativos se devem exclusivamente a uma intervenção extraordinária destinada a salvar a operação de um hospital católico e os empregos de seus funcionários”, explicou o bispo.

O jornalista indica, em particular, a administração de imóveis, cujo valor, conforme suas estimativas, é de cerca de 2,7 bilhões de euros, “mas mal administrados, uma vez que cerca de 800 propriedades estão vazias e 15% das 3.200 propriedades foram concedidas gratuitamente e outras a preços reduzidos”.

O bispo sustenta, porém, que são 2.400 apartamentos, a maioria em Roma e em Castel Gandolfo, e outras 600 propriedades, entre lojas e escritórios.

“Os que não geram renda são os apartamentos de serviço e os escritórios da Cúria. Em relação a seu valor de mercado, é impossível fazer uma estimativa. Tomemos como exemplo os edifícios da Piazza Pio XII: quanto valem na prática? se transformados em um hotel de luxo, é uma coisa: se abrigam os escritórios da Cúria Romana, como agora, são inúteis”, diz ele.

“Um Estado que não possui impostos, ou dívida pública, tem apenas duas maneiras de viver: obter receita com seus próprios recursos e depender das contribuições dos fiéis”, completou. *AFP