A colheita recorde deste ano trouxe bonança aos agricultores argentinos, mas o setor teme que um eventual governo do peronista Alberto Fernández, favorito nas eleições presidenciais de domingo e sua candidata, a vice Cristina Kirchner, ficará de olho na galinha dos ovos de ouro.

“Virão atrás de nós”, prevê o produtor Daniel Pérez em seus campos em Ramallo, coração do setor agropecuário na província de Buenos Aires, transbordando de gado, milho, trigo e soja prontos para a exportação.

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O próximo governo “certamente virá ao campo porque é a única riqueza genuína que vão ter para conseguir sair disso”, disse, referindo-se à economia endividada e em recessão.

Em meio à crise, este é o único setor que cresceu no país sul-americano, com uma alta de 46% no segundo trimestre de 2019 em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).

– “Já passou” –

Como muitos produtores, Pérez, de 42 anos, votou no liberal Mauricio Macri em 2015.

Embora Macri tenha cumprido suas promessas de reduzir os impostos sobre o setor agropecuário ao chegar ao poder, Pérez lamenta o descalabro econômico de seu país: uma inflação que somou 37,7% entre janeiro e setembro, a moeda que perdeu 34% de seu valor neste período e o crédito cada vez mais caro com taxas de juros acima de 80%.

Apesar de tudo, a rejeição ao peronismo de esquerda representado por Fernández é ainda maior.

Embora mais de uma década tenha se passado, os produtores carregam na memória a batalha com o governo de Cristina Kirchner (2007-2015), sobretudo em 2008, quando quis impor uma reforma ao sistema de cálculo dos impostos sobre a exportação de soja – principal cultivo na Argentina.

A disputa representou uma derrota política para o kirchnerismo após quatro meses de guerra com as patronais agropecuárias que prometeram fechamentos de vias, mobilizações e “tratoraços” (protestos com este veículo) contra a alta das chamadas “retenções”.

Fernández garante que o confronto ficou para trás. “Isso já passou”, disse o político, que era chefe de Gabinete durante o conflito. Ele prometeu que, se ganhar, dialogará com o setor, que representa 6,1% do PIB.

Para Juan Ouwerkerk, presidente da cooperativa de agricultores Alfa, no sul da província de Buenos Aires, as políticas de um eventual governo de Fernández são fonte de preocupação. “É uma incógnita terrível. Se as retenções forem excessivas, isso se tornará impossível”, alerta.

Segundo pesquisa da Zorraquín + Meneses, consultoria especializada no setor, 67,8% dos produtores agropecuários acreditam que as retenções vão aumentar e metade revela que vai alterar seus investimentos.

– Boom do trigo –

“Precisamos de estabilidade na economia, recuperar a moeda, acabar com a inflação”, avalia o presidente da SRA.

Além de reduzir os impostos, Macri liberou a exportação de trigo e milho. Ele também criou uma redução progressiva das retenções de soja e favoreceu a exportação de carne, sobretudo para a China.

As medidas favoreceram a produção de trigo, que passou a ocupar de três a seis milhões de hectares.

Mas os custos do campo, a maioria ligados ao dólar, dispararam.

Frete, sementes, fertilizantes, atualização de maquinários e veículos, “todos os custos estão dolarizados e sofreram ‘inflação’ em dólares”, explica Pérez.

Como muitos produtores, Pérez teme que Fernández impulsione o mercado de câmbio. “Se eles se desenrolam, estou perdido porque meu cereal terá uma taxa de câmbio e meus custos, outra”, disse ele.

Nos campos de Daniel Berdini, outro produtor de Ramallo, o milho aparece nos sulcos, o trigo cresceu o suficiente e as sementes de soja estão prontas para serem semeadas. Ao próximo governo, adverte: “Se eles vierem para nós, vamos gritar”. *AFP

 

 

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