A renúncia do ex-presidente boliviano Evo Morales despertou temores no Governo da Frente Sandinista da Nicarágua, que colocou em andamento uma campanha agressiva com ameaças de prisão e uso de munição real contra os opositores.

Dirigentes do partido do presidente Daniel Ortega advertiram opositores que “não se confundam” com os acontecimentos na Bolívia porque na Nicarágua “os revolucionários estão armados”.

Para a oposição, essas mensagens são uma forma de atemorizar a população para que não se manifeste.

“Entramos em uma etapa de radicalização do regime, produto do medo que sentem por ver o que aconteceu na Bolívia”, reagiu no Twitter o ex-deputado opositor Elíseo Núñez.

A renovada pressão contra o governo é vivida em um grupo de mulheres que iniciou uma greve de fome em uma igreja católica na cidade de Masaya (sul) para exigir a libertação de 130 opositores presos.

A polícia e simpatizantes sandinistas rodearam a igreja para assediar os grevistas e impedir que a entrega de água.

A Nicarágua vive as consequências da crise política iniciada pelas manifestações de 2018 que puseram em xeque o governo de Ortega, cujas forças de seguranças reprimiram os protestos deixando 325 mortos, centenas de detidos e 62.500 exilados, segundo grupos humanitários.

Evo Morales renunciou em 10 de novembro após três semanas de protestos por denúncias de irregularidades nas eleições de 20 de outubro. Morales deixou o governo depois de perder o apoio do exército e da polícia.

Ortega, um aliado de Morales, atribuiu sua queda a “um golpe de Estado”, e afirmou que isso resultará na perda de credibilidade nos processos eleitorais.

“Apostamos na via eleitoral, mas a da Bolívia é uma prova de fogo para que se possa sustentar a mínima confiança nessa via”, declarou Ortega na semana passada em um ato público.

Ao contrário, advertiu, “os povos se sentirão com todo o direito de tomar as armas para buscar o poder pela via revolucionária”.

O economista Juan Sebastián Chamorro, membro da opositora Aliança Cívica pela Justiça e a Democracia (ACJD), classificou a fala de Ortega como uma “bravata” e uma ameaça de destruir o pouco que resta de institucionalidade.

– Mobilização –

“Aqui os revolucionários estão armados (Polícia, Exército e povo organizado) e se há algo que os sandinistas sabem fazer é vencer”, expressou no Twitter Carlos Fonseca Terán, filho do falecido fundador das FSLN, Carlos Fonseca Amador.

Juan Carlos Ortega, filho do presidente, compareceu na semana passada com um grupo de apoiadores à cúpula empresarial, onde recordou uma frase do líder nacionalista Augusto Sandino: “A liberdade não se conquista com flores, mas à bala”.

Empresários interpretaram suas palavras como uma ameaça.

O presidente do parlamento e próximo a Ortega, Gustavo Porras, em uma recente discurso a sindicatos sandinistas, pediu mobilização “diante de qualquer ação do inimigo”, porque “se nós não agirmos, eles vão querer atuar como na Bolívia”.

“Nós estamos nos preparando como movimento sindical porque sabemos que se a direita ganhar, vão nos tirar tudo”, disse à AFP o dirigente operário, Luis Barbosa, em referência às reivindicações obtidas nos 12 anos de governo de Ortega.

Os sindicatos sandinistas protagonizaram protestos durante os governos liberais na década de 1990, que paralisavam o país por semanas.

“Não temos medo da crise na Bolívia, mas existem milhões de dólares para desestabilizar esse país”, afirmou Barbosa, depois de acusar os Estados Unidos de financiar organizações não governamentais de direitos humanos e meios de comunicação.

A ex-guerrilheira sandinista e historiadora Dora María Téllez considerou que “a síndrome da Bolívia e os protestos de abril são o terror para Ortega porque ele teme a mobilização popular”. *AFP