O Brasil não tem “qualquer problema” com o presidente eleito da Argentina, garantiu nesta terça-feira o ministro da Economia, Paulo Guedes, ao ser consultado sobre o Mercosul em palestra realizada em Washington.

Guedes e o presidente Jair Bolsonaro haviam advertido que uma vitória do peronista Alberto Fernández nas eleições presidenciais da Argentina colocaria em risco o acordo vigente desde 1991, porque ameaçaria a continuidade das políticas de livre mercado do atual presidente argentino, Mauricio Macri.

Mas um dia depois de o próprio chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, insistir na possibilidade de o Brasil abandonar o Mercosul, Guedes descartou que a futura administração peronista seja um problema, sempre e quando o novo governo argentino compartilhar a aposta de abertura do bloco para outros mercados.

Consultado em Washington sobre o futuro do Mercosul após a assinatura do histórico acordo com a União Europeia (UE) ao final de 20 anos de árduas negociações, Guedes se disse otimista com a rápida ratificação, por todas as partes, incluindo a Argentina.

O Mercosul “é muito importante para nós”. “Estamos buscando bases mais altas, esperamos que venham conosco e com a UE”, disse Guedes durante conferência no Peterson Institute for International Economics (PIIE), em Washington.

“Minha expectativa é que nos sigam, é o razoável. Deveriam fazê-lo. É importante para eles (…) Perderam, como nós, 10, 20 anos com uma economia fechada”.

“Eu não tenho qualquer problema com o novo presidente da Argentina, na medida em que estejamos buscando bases mais altas juntos, não haverá qualquer problema”.

Fernández assumirá a presidência da Argentina no dia 10 de dezembro, ao lado de sua companheira de chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), conhecida por suas políticas protecionistas de esquerda.

Na véspera, em declarações ao jornal Valor Econômico, Araújo admitiu que a saída do Brasil do bloco era um cenário possível.

“Aparentemente, há na Argentina uma visão profunda que vai contra os postulados básicos do Mercosul. Na nossa transição [de governo], no fim do ano passado, houve dúvidas sobre a utilidade do Bloco. Apostamos no Mercosul e isso vinha dando certo com a Argentina do Macri”, afirmou Araújo.

“Não podemos dizer que é um projeto inquestionável, que vai durar para sempre, aconteça o que acontecer. O Mercosul não é apenas um nome, uma bandeira hasteada. Se o projeto é desvirtuado, precisa ser repensado”.

No Twitter, a assessora econômica de Fernández, Paula Español, declarou que “firmar acordos apenas para dar ‘sinais ao mundo’, sem contemplar impactos em matéria de desenvolvimento, como buscou a atual administração no caso da União Europeia-Mercosul, não é o caminho”. *AFP