O presidente Andrés Manuel López Obrador alertou os Estados Unidos nesta sexta-feira que o México não permitirá que estrangeiros armados atuem em seu território, depois que o norte-americano, Donald Trump, disse que designaria traficantes de drogas como “terroristas”.

A declaração de Trump – que também propôs que os Estados Unidos ajudem o México a “declarar guerra aos cartéis e eliminá-los da face da Terra”, após o massacre de nove mórmons de nacionalidade mexicana-americana – foi interpretada como uma ameaça de uma intervenção de agentes armados americanos.

“Não permitiremos que pessoas armadas atuem em nosso território. Estrangeiros armados não podem intervir em nosso território (…) Não permitiremos isso”, afirmou López Obrador.

Mas o presidente de esquerda considerou improvável que os Estados Unidos, para combater o narcotráfico ou o terrorismo, embarque numa intervenção armada no território mexicano porque, segundo ele, Trump sempre foi “respeitoso” e há uma grande “cooperação” entre os dois governantes.

“No caso remoto de uma decisão que possa afetar nossa soberania, agiremos dentro da lei internacional. Mas acho improvável”, acrescentou.

Trump afirmou em uma entrevista na terça-feira que seu país catalogaria os cartéis como “organizações terroristas”, mas não detalhou quando isso seria feito, nem quais medidas concretas adotaria.

Seu anúncio ocorreu após o massacre, em 4 de novembro, de três mulheres e seis crianças de famílias mórmons de origem americana em uma estrada rural no estado de Sonora, no norte do México.

Segundo as autoridades, foi um ataque de atiradores do narcotráfico que teriam “confundido” o veículo das vítimas.

Mas familiares das vítimas rejeitam esta versão. Eles pediram à Casa Branca que o FBI participasse das investigações – que já foram concluídas – e que Washington se envolva na luta contra o narcotráfico.

– “Não o telefonei” –

López Obrador disse estar convencido de que provará aos Estados Unidos que o México fará justiça neste caso, enquanto o ministro das Relações Exteriores Marcelo Ebrard anunciou que o procurador-geral americano, William Barr, estará na Cidade do México na próxima semana para discutir a questão.

O presidente disse que, em conversas telefônicas, Trump ofereceu “intervenção e cooperação”, mas sempre de maneira respeitosa. “Ele me disse ‘pense nisso e, se precisar, ligue para mim’. Eu não liguei para ele”.

A história de ambos os países, que compartilham uma fronteira comum de quase 3.200 km, tem sido marcada por intervenções armadas dos Estados Unidos. Após a guerra de 1846-1848, o México perdeu metade de seu território, enquanto a última intervenção armada americana foi em 1914.

Nas últimas décadas, o México estabeleceu uma estreita relação com os Estados Unidos em termos de segurança, principalmente para combater o narcotráfico, mas com a condição de que seus agentes destacados no território mexicano atuem desarmados.

Após uma reforma legal em 2015, agentes aduaneiros, migratórios e guardas de autoridades podem entrar no México armados.

López Obrador deve se reunir na segunda-feira com parentes das vítimas do ataque em Sonora, incluindo os LeBarón, uma das maiores famílias mórmons do México.

Em meio à violência ligada ao narcotráfico, mais de 250.000 pessoas morreram no México desde dezembro de 2006 – quando o governo lançou uma polêmica operação militar contra cartéis – segundo dados oficiais, que não detalham quantos casos estariam relacionados ao crime organizado. *AFP