A Bolívia informou na sexta-feira (27) ter impedido a entrada de diplomatas e funcionários da Espanha – encapuzados e aparentemente armados – na embaixada do México em La Paz, onde estão asilados cerca de dez funcionários do antigo governo de Evo Morales.

A polícia “impediu o ingresso dos veículos (diplomáticos espanhóis) nas instalações, já que a presença de encapuzados representava uma potencial ameaça” para a delegação mexicana, revelou a chanceler Karen Longaric.

A chanceler acrescentou que denunciará a Espanha pelos fatos, mas não confirmou se o plano era permitir a fuga dos ex-funcionários.

O incidente ocorreu na manhã da sexta-feira, quando pessoal diplomático e outros com os rostos cobertos buscaram romper o cerco da polícia boliviana em torno da embaixada do México.

Longaric assinalou que o “pessoal diplomático e de segurança da embaixada da Espanha na Bolívia não tem autorização para portar armas de fogo ou usar trajes que ocultem sua identidade”, acrescentando que “estes atos contrariam as práticas diplomáticas”.

Segundo a chanceler, a Espanha “abusa dos privilégios” diplomáticos previstos na Convenção de Viena e por este motivo enviou uma nota ao ministério espanhol das Relações Exteriores reclamando “pelos atropelos que afetam profundamente a dignidade e a soberania do estado boliviano”.

A nota será enviada aos embaixadores acreditados na Bolívia, às Nações Unidas, à União Europeia e à Organização dos Estados Americanos.

Entre os bolivianos asilados na embaixada do México estão os ex-ministros da Presidência e da Cultura, Juan Ramón Quintana e Wilma Alanoca, acusados pelo atual governo de “sedição e terrorismo”.

Também estão no local o ex-ministro da Defesa Javier Zavaleta e o ex-governador de Oruro Víctor Hugo Vásquez.

Consultada sobre se havia um plano de fuga elaborado por espanhóis e mexicanos, Longaric respondeu que “estamos em um processo de análise”.

O comandante local da Polícia, Julio Cordero, revelou que o pessoal de inteligência “interceptou” o grupo e tentou identificá-lo, o que o “tornou agressivo” e provocou sua “fuga”.

Imagens divulgadas nas redes sociais mostram dois automóveis com placa diplomática saindo do local em alta velocidade, enquanto populares reclamam da presença dos espanhóis e batem com as mãos nos veículos.

A presença permanente de policiais em torno da embaixada mexicana provocou esta semana protestos do governo do presidente Andrés Manuel López Obrador, que ameaçou denunciar La Paz à Corte Internacional de Justiça (CIJ).

O México manifestou várias vezes o seu temor de que o governo boliviano invada a embaixada para deter os antigos funcionários de Morales.

As relações entre Bolívia e México estão deterioradas desde que o governo de Obrador recebeu Morales, após sua fuga do país.

Morales, 60 anos e que ocupou a presidência da Bolívia por 14, renunciou no dia 10 de novembro, após duas semanas de protestos por sua reeleição em um processo considerado fraudulento pela oposição, o que foi posteriormente confirmado pela OEA (Organização dos Estados Americanos). *AFP