As alterações climáticas e o “mundo de incertezas” dos criadores de renas

Estamos a terminar aquele que foi o inverno mais quente alguma vez registrado. O passado mês foi o segundo fevereiro mais quente desde que há registro, em todo o mundo. E, na Europa, todo o período de inverno, do início de dezembro ao final de fevereiro, as temperaturas estiveram 3,4 graus Celsius acima da média estabelecida entre 1981 e 2010.

A uma escala global, a anomalia nas temperatura de superfície, em fevereiro, é evidente.

O fim do verão na Antártida foi mais quente que a média, na Austrália esteva mais frio e, na Europa, mais ameno, mas na Sibéria e na Ásia Central as temperaturas estiveram bastante acima da média, em fevereiro.

Climate Now / Euronews – Wilks, Jeremy

Ainda em fevereiro, o aumento das temperaturas provocou uma descida do nível de cobertura de gelo do Ártico. Os cientistas calcularam que existem cerca de 850 mil quilómetros quadrados a menos de gelo marítimo do que o que seria normal nesta época do ano, o equivalente às áreas de França continental e de Itália juntas.

Abisko: uma terra de mudanças sob a neve

Em Abisko, no norte da Suécia, a temperatura média anual passou de abaixo de zero para níveis positivos, devido às alterações climáticas.

Ao analisarmos a evolução das temperaturas anuais, é possível observar uma flutuação desde 1960, num aumento gradual.

Climate Now / Euronews – Wilks, Jeremy

Por esta altura, a vila permanece coberta de neve e gelo e as temperaturas rondam os -15 ° C.

No norte do círculo ártico tudo parece estar congelado. Mas sob a neve há grandes sinais de mudança.

Keith Larson é investigador na área do clima e estuda o fenómeno numa estação meteorológica que existe no local desde 1913.

As árvores, aqui, funcionam como termómetros e as temperaturas medidas por esta estação meteorológica há mais de cem anos mostram que Abisko está a aquecer pelo menos duas vezes mais rápido que o resto do mundo.

Larson diz que isso se deve a um ciclo de resposta: à medida que a neve e o gelo derretem, refletem menos luz solar, o que faz com que derretam mais depressa.

“Em 1989, com exceção de 2010, todos os anos são quentes. Isso não significa que não faça frio no inverno, ainda estamos no Ártico. Mas já não temos invernos frios”, revela.

O impacto no ecossistema

No centro de turismo do Parque Nacional de Abisko, há uma exposição totalmente dedicada às mudanças na paisagem local e ao que isso significa para as plantas e animais autóctones.

O desaparecimento do gelo pode vir a levar ao desaparecimento de espécies, muito em breve. A diretora do centro, Lo Fischer, dá-nos o exemplo da raposa do Ártico, que “vive nas áreas mais altas das montanhas”. Com a vegetação a aumentar em direção ao cume, “a raposa vermelha está a subir. E se se encontrarem, a raposa vermelha conquista o espaço da raposa do Ártico”, explica.

Na vila, os habitantes apercebem-se de mudanças que não são visíveis para outras pessoas. É o caso da linha de árvores, que costumava estar mais abaixo. Atualmente, com o aumento das temperaturas, está cada vez mais perto do topo da montanha”.

Para quem vive do pastoreio de renas, as alterações estão a tornar a vida cada vez mais difícil, com as dispersão das pastagens.

Um clima mais quente significa mais chuva, o que impede o acesso ao solo onde está o líquen, o alimento das renas. Para os animais não passarem fome, algumas famílias prenderam-nos e estão a alimentá-los à mão. No entanto, – dizem – isso não é bom para as renas.

Para o criador Tomas Kuhmunen, o futuro é “um mundo de incertezas”. Ninguém, na localidade, sabe ao certo como agir para fazer face à falta de alimento. “Quando perguntamos aos mais velhos o que fazer num inverno assim, o que fizeram eles, eles respondem que não sabem”, lamenta.

Tomas não está preocupado com o presente, mas sim com a próxima geração e questiona-se se o inverno, tal como o conhecíamos, vai alguma vez voltar. *Euronews

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