A empresa que quer se tornar a ‘Uber do espaço’

A neve rodopiou e um vento cortante fez com que as temperaturas despencassem para vários graus abaixo de zero quando o Stardust 1.0 fez sua estreia em uma antiga base militar no Maine, Estados Unidos.

Não foi uma estreia muito glamourosa para um foguete prestes a fazer história: ele estava amarrado a um trailer e foi puxado por uma picape ao longo de uma pista que já foi usada por bombardeiros B-52 na Guerra Fria.

E quase não aconteceu nada, já que as condições abaixo de zero causaram estragos no sistema eletrônico e as nuvens atrapalharam.

Mas, depois de vários atrasos e, conforme a luz da tarde de domingo (31/1) diminuiu, o Stardust finalmente decolou, tornando-se o primeiro lançamento comercial de um foguete movido a biocombustível.

Sascha Deri, que inventou o biocombustível, é cauteloso quando fala do composto, mas diz que ele pode ser obtido em fazendas ao redor do mundo. Fundador e executivo-chefe da bluShift Aerospace, ele e sua equipe passaram mais de seis anos refinando a fórmula e projetando um motor híbrido modular, que também é único.

“Queremos provar que um combustível bio-derivado pode servir tão bem, talvez até melhor em alguns casos, do que os combustíveis tradicionais para impulsionar foguetes e cargas úteis para o espaço”, diz ele.

“Na verdade, custa menos por quilograma do que o combustível de foguete tradicional e é totalmente atóxico. Ele é um combustível neutro em carbono que é inerentemente melhor para o nosso planeta e mais responsável.”

Stardust é um pequeno foguete, com apenas seis metros de comprimento e 250 quilos. Mas, como é relativamente barato de voar e não precisa da infraestrutura de alta tecnologia usada em foguetes maiores, pode ajudar a tornar a pesquisa espacial acessível a mais pessoas. Alunos, pesquisadores e empresas poderão realizar experimentos e testar produtos com maior controle e frequência.

“No momento, existem trens de carga para o espaço, como SpaceX e ULA, e há ônibus para o espaço, como foguetes de tamanho médio”, diz Deri. “Eles estão levando milhares de quilos para o espaço. Mas não há serviço de lançamento espacial que permita que uma ou duas cargas úteis vão para o espaço. Não há Uber para o espaço. Queremos ser o serviço do Uber para o espaço.”

Para o primeiro lançamento, a carga útil incluiu um experimento feito por alunos do ensino médio e testes com uma liga de metal chamada nitinol, feita pelo Kellogg Research Labs em Salem, nos Estados Unidos.

O fundador Joe Kellogg diz que o nitinol é um material usado em dispositivos médicos, como stents. Ele também é usado para proteger cargas úteis de foguetes de vibrações.

“Estamos fortemente envolvidos no espaço e tentando entrar em missões maiores, como as missões lunares e as missões de Marte que estão chegando. Nosso objetivo a longo prazo é construir foguetes inteiros de nitinol”, diz ele. “Achamos que podemos torná-los mais leves e mais eficientes em termos de energia.”

Enquanto o Stardust voou apenas uma milha no céu antes de saltar de paraquedas de volta à Terra, um segundo foguete será suborbital, e uma versão posterior chamada Red Dwarf entrará na órbita polar.

As órbitas polares oferecem mais exposição à terra do que as órbitas equatoriais. E Maine, Estado localizado no noroeste dos EUA, é geograficamente adequado para tais lançamentos, o que o torna atraente para a crescente indústria de comunicação por satélite espacial, diz Terry Shehata, diretor-executivo do Maine Space Grant Consortium, que é financiado pela agência espacial americana, a Nasa.

Segundo algumas estimativas, os serviços de lançamento de pequenos satélites podem movimentar US$ 69 bilhões (cerca de 376 R$ bilhões) na próxima década. O bluShift sozinho espera criar 40 novos empregos em cinco anos por meio do lançamento de minúsculos satélites conhecidos como cubosats.

Maine já tem a infraestrutura para dar suporte ao setor, diz Shehata. No auge da Guerra Fria, a Base Aérea de Loring, em Limestone, era a linha de frente de defesa dos Estados Unidos.

Os bombardeiros B-52, armados com ogivas nucleares, constantemente circulavam os céus em alerta máximo para deter qualquer ameaça da Rússia. O Stardust foi lançado da pista de concreto armado de três milhas da base e foi temporariamente alojado em um hangar construído para caças.

A base foi fechada em 1994, com efeitos econômicos devastadores para a região.

Outras bases anteriores incluem Brunswick Landing, que poderia se tornar o controle da missão de um complexo de porto espacial estadual.

“Maine tem os recursos certos, tem as pessoas, tem a vantagem geográfica de poder lançar na órbita polar. Tudo o que precisamos fazer é acreditar em nós mesmos que podemos fazer isso”, diz Deri.

(BBC News)

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